A reinvenção da comida: o momento do veganismo

Compaixão pelos animais, questões ambientais e a busca por uma alimentação saudável. Novas tendências de consumo começam a provocar uma revolução na indústria de alimentos.

Por Bianca Móra, Pâmela Bugatti e Sibeli Santos

“Veganismo é uma filosofia e estilo de vida que busca excluir, na medida do possível e praticável, todas as formas de exploração e crueldade contra animais na alimentação, vestuário e qualquer outra finalidade. Na dieta, significa a prática de dispensar todos os produtos derivados em parte ou totalmente de animais”, explica a livre tradução de The Vegan Society, grupo que fundou o termo “Veganismo”, em 1944 no Reino Unido. 

Aos 50 anos de idade, Simone Duran Martinez está cada vez mais perseverante em sua escolha. Devido às cobranças das sobrinhas e aos vídeos que via sobre como funcionam as indústrias alimentícias, a assistente social decidiu aderir há dois anos esse posicionamento de vida e não se arrepende por ter excluído a carne do cardápio.

Antes disso, ela foi vegetariana por um tempo, mas, devido ao esposo que consumia muita carne, não conseguiu resistir e voltou a comer os antigos alimentos.

Feminista e anticapitalista, Simone sempre teve consciência que não deveria comer carne, consumir leite e os demais produtos que vêm dos animais, contudo sabe que, pela cultura estabelecida na região, é difícil encontrar opção vegana. Também não concorda sobre os produtos veganos e vegetarianos terem um valor tão estimado.

"Eu quero ajudar a construir um veganismo popular, que todo mundo tenha acesso e que consigam produzir" (Foto: Pâmela Bugatti)

“Eu quero ajudar a construir um veganismo popular, que todo mundo tenha acesso e que consigam produzir. Isto está ligado aos nossos ancestrais, de você cultivar em casa a própria horta. No mercado, o capitalismo se apropriou nessa linha, porque o capitalismo sabe que isso é um nicho importante no mercado.”

Sem nenhuma intenção de voltar a ter os velhos hábitos, a assistente social passou a incentivar várias pessoas a deixarem de consumir carne e produtos que são de origem animal.

“A mensagem que eu deixo é a seguinte: olhe para o seu prato e para o que você está comendo com reflexão. Como aquele pedaço de frango chegou até ali? Qual foi o processo que ele passou? Qual é a dor e qual é o sofrimento que ele passou? Comece a ver isso não só como uma mercadoria, mas como um ser. Um ser que tem medo, que tem dor, que tem pavor, que não queria morrer para alimentar um paladar seu, porque existem outras comidas maravilhosas para você.”

Mesmo sem acompanhamento nutricional, ela afirma que está em dia com a saúde. “A principal preocupação é proteína, mas existe proteína em várias plantas. Os meus últimos exames deram normais, não deram nenhuma alteração”. Quanto ao esposo, ele continua a comer carne, mas, graças a Simone, aderiu a uma quantidade inferior diante ao que consumia antes.

VÍDEO | VIDA DE UMA VEGANA

Natalia Stabile é vegana há mais de um ano e se engana quem pensa que esse estilo de vida é muito difícil. Ela mostra como é seu dia a dia, de maneira simples, e conta sobre como foi sua decisão de se tornar vegana. Também conta um pouco dos produtos de beleza, totalmente naturais, que ela mesma cria e vende.

MUDANÇA DE HÁBITO

Natalia produz artesanalmente shampoo, condicionador, iluminadores, sombras e cremes, todos de uma forma vegana (Foto: Bianca Móra)

“Foi uma ampliação de consciência que eu vi a necessidade de me tornar vegana, porque eu falo que o veganismo não é uma dieta é um posicionamento político, ético político, do entendimento de que os animais de outras espécies também são seres sencientes e quando eu tive consciência disso. Vi que não tinha outro caminho e quando você percebe, por exemplo, que os animais não querem morrer, então eu não quero comer nada que tenha sentido dor e pânico para me alimentar, diante da vastidão que existe de alimentos sem ser a carne”, explica Simone Duran.

Natalia Stabile, 22, é vegana e devido à uma doença resolveu criar os próprios cosméticos naturais. Hoje ela fabrica desde maquiagens até cremes hidratantes e recentemente resolveu expandir e começar a lucrar com os produtos.

“Quando surgiu uma crise de ovário policístico em mim, eu tive um monte de espinha, tenho até marcas, e eu não sabia o que fazer, então comecei a cuidar da minha pele com coisas naturais. Comecei a fazer só para mim, procurei bastante e a faculdade me ajudou nisso. Em janeiro deste ano eu abri meu negócio e agora faço cursos de cosméticos veganos”, conta Natalia

O historiador Thiago Granja Belieiro, da Universidade do Oeste Paulista, pontua que o veganismo está ligado a um movimento que se preocupa com a preservação da natureza, os direitos em que os animais têm e que de forma ética todo o alimento gera efeito no nosso organismo assim como no ambiente.

“Os veganos em especial são as pessoas que estão mais comprometidas com uma alimentação ética neste sentido, em ter uma alimentação saudável, uma vida mais saudável, mas também pensando nos impactos que a alimentação industrial e de origem animal causam na sociedade e no meio ambiente como um todo”, explica.

VEGETARIANISMO NO BRASIL

"A mensagem que eu deixo é a seguinte: olhe para o seu prato e para o que você está comendo com reflexão", diz Simone (Foto: Pâmela Bugatti)

De acordo com uma pesquisa realizada em 2018 pelo Ibope, encomendada pela Sociedade Vegetariana Brasileira, os adeptos da alimentação vegetariana, aqueles que excluem a carne do cardápio somam 30 milhões (14% da população no país).

Já os que se declaram como não vegetarianos chegam a 81%. O levantamento foi feito entre os dias 12 e 16 de abril de 2018 em 102 municípios brasileiros.

Nas regiões metropolitanas, houve um crescimento no índice de vegetarianos. Pesquisa feita pelo Ibope em 2012 só nessas áreas apontava para 8% de adeptos da dieta. Hoje esse índice é de 16% (um pouco maior que a média nacional). Infelizmente, ainda não existem pesquisas que indiquem o número de pessoas veganas no Brasil.

“No ponto de vista ético as pessoas estão percebendo que aquilo que a gente come causa impactos não só para o organismo. E aí que vem esses estudos nutricionais, a disseminação das informações pela internet, a existência de blogs de nutrição etc”, defende Thiago.

Ainda de acordo com a pesquisa do Ibope realizada em 2018, o índice de interessado nesse tipo de alimentação nas capitais sobe para 65%. Além da opção alimentar, muitas pessoas estão preocupadas em como o alimento gera um impacto grande na sociedade e principalmente com as questões dos animais.

Assim como a assistente social, a jovem Natália também defende seu posicionamento. “Eu parei de comer por conta de algo mais espiritual, mas envolve muitas coisas, como a Amazônia, a gente parar de comer carne é um ato politico, é um ato que faz bem para você, tem muita coisa envolvida, não é só tipo vou para porque vou parar”, comenta.

SAÚDE POP | PODCAST

Neste podcast, as apresentadoras Pâmela Bugatti e Sibeli Santos falaram com a nutricionista Priscilla Lopes, a psicóloga Luciana de Paula Alves e Maria Vitória Guimarães, que é vegana há dois anos, a respeito do veganismo e de seus ideais. Dê o play! 

SABOR VEGANO

E aí, ficou curioso? Quer saber mais sobre a culinária vegana? Então se liga na dica e mãos à obra!

FCHA TÉCNICA

Repórteres: Bianca Móra, Pâmela Bugatti e Sibeli Santos – Infográficos: Sibeli Santos – Fotografia: Bianca Móra, Pâmela Bugatti e Sibeli Santos – Áudio: Pâmela Bugatti e Sibeli Santos – Cinegrafia: Bianca Móra – Edição de textos: Bianca Móra, Pâmela Bugatti e Sibeli Santos – Edição de vídeo: Bianca Móra – Edição de imagens: Bianca Móra, Pâmela Bugatti e Sibeli Santos – Layout da reportagem: Bianca Móra, Pâmela Bugatti e Sibeli Santos – Edição final e supervisão: Fabiana Aline Alves

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