Leite nosso de cada dia

Indispensável para a maioria dos brasileiros, o leite tem um longo caminho para chegar às mesas diariamente. Acompanhe essa trajetória do sítio de Edson Pedroso até um laticínio de Alvares Machado. Saiba ainda como é viver com intolerância à lactose.

Por: Beatriz Duarte, Brenda Oliveira, João Martins, Maria Eduarda Kato e Michelle Santos

A jornada de trabalho começa bem cedo para o produtor de leite, Edson Pedroso. Há 42 anos, o agropecuarista levanta, todos os dias, antes do galo cantar, e arruma-se para mais um dia no Sítio Anjo da Guarda, localizado em Floresta do Sul, distrito de Presidente Prudente. Apesar de parte do caminho ser de estrada de terra, o trajeto de sua casa até o sítio leva menos de dez minutos e, por volta das 6h, ele e seu parceiro de trabalho, Mauro Villalba, já iniciam os procedimentos para a retirada do leite.

A rotina vivida até hoje por Edson foi uma herança deixada pelo seu pai, Waldemar Pedroso, que o levava desde criança para acompanhá-lo no sítio. Aos quatro anos de idade, o próprio Edson pedia para ir trabalhar com o pai, mas acabava ficando dormindo dentro do carro até mais tarde e só acompanhava o processo ao longo do resto da manhã. Já aos nove, Waldemar começou a ensinar algumas técnicas da retirada do leite para o filho e o pequeno colocou a mão na massa. Os anos se passaram e a obrigação tornou-se uma escolha que Edson decidiu fazer em todos os dias de sua vida. “Eu gosto mesmo é de fazer isso aí”, afirma.

Mesmo com a consciência de que a produção de leite não traz grande retorno financeiro, ao contrário do que acontecia há algumas décadas, o pecuarista ainda dedica boa parte de seus dias para tomar conta dos serviços e cuidados relacionados ao produto. Diariamente, Edson e Mauro realizam o manejo de 38 vacas leiteiras. Cada animal possui um nome e assim são chamados por eles. Os nomes são escolhidos de acordo com alguma característica de cada vaca e resultam em apelidos como Mascarada, Fantasia, Paulista e Mimosa. Algumas delas, já estão há quase 20 anos na propriedade, e, ainda assim, são tratadas como únicas.

Por trás da rotina atual vivida no sítio, existe toda a trajetória de uma família que carrega e conta por si só todo o caminho percorrido até aqui. A família Pedroso tem uma história em Floresta do Sul e é respeitada por isso. É comum que os moradores do distrito batam palma em frente a casa da mãe de Edson, a dona Nilra Pedroso, para buscar os litros de leite encomendados, geralmente embalados em garrafas pets de dois litros. “Tem gente que morava aqui, mudou para Prudente, já teve filhos e mesmo assim vem até aqui para buscar o leite”, conta a dona de casa.

Com dois filhos, uma menina e um menino, Edinho, como é chamado carinhosamente dentro de sua casa, não tem um sucessor que queira seguir com a tradição que recebeu de seu pai. O filho é formado em Música e, atualmente, dá aulas em escolas. Sua filha está no ensino médio e participa de um curso de Corte e Costura já pensando na faculdade de Moda. Nenhum dos dois demonstrou interesse na área que o pai trabalha, mas ele nunca chateou-se com isso. Edson acredita que o importante é sentir-se feliz e satisfeito com a profissão escolhida, assim como seu pai sempre o apoiou a estudar.

ANJO DA GUARDA

Por tratar de um trabalho manual, sem o uso de ordenhadeiras, o processo de retirada do leite, no Sítio Anjo da Guarda, é mais lento e mais pesado em relação às ordenhadeiras mecanizadas, onde o animal tem o leite sugado por teteiras elétricas. Quem acompanha Edson, diariamente, é Mauro Villalba, de 48 anos. Braço direito do pecuarista, ele ajuda na ordenha e nos demais afazeres da propriedade, além de residir no local há quase um ano. Questionado sobre a vida no campo, Mauro diz que é no sítio que a sua família encontra lazer.

“Todos os finais de semana, eu recebo a visita dos meus netos. Acho que, talvez, vendo o avô, eles se espelham e sigam a mesma história”, conta o caseiro  enquanto lava a mão no tanque improvisado, após deixar a mangueira limpa e organizada para a rotina do dia seguinte.

Com o auxílio do ajudante, Edson inicia o trabalho antes mesmo dos primeiros raios solares anunciarem que já é dia. Neste horário, a dupla já separou os animais dentro da mangueira, nome dado ao espaço onde é feita a retirada do leite. O lugar é um grande cercado de madeira, subdivididos em três áreas menores, onde os animais são colocados enquanto aguardam o seu momento de contribuição. No ar, paira o cheiro da mistura de terra molhada, fezes de animais e claro, leite.

Vacas de um lado, bezerros para outro. A separação é necessária para que eles consigam organizar todo o trabalho realizado de forma manual. Aos poucos, os filhotes são soltos para partirem em direção às mães e cada um reconhece a sua genitora de longe. Segundo Pedroso, este é o momento em que os bezerros “pojam na vaca”, termo utilizado para definir a indução do leite por meio da mamada da cria, facilitando o início da retirada. Após essa etapa, os bezerros são amarrados na cerca da mangueira, ao lado de suas mães, enquanto os produtores retiram o leite. Após o término, os filhotes são soltos e voltam eufóricos para as tetas de suas protetoras.

Pouco a pouco, o líquido branco preenche os galões posicionados do lado de fora da cerca da mangueira. Toda a ordenha leva em torno de duas horas e resulta em uma média de 150 litros diários, sendo quatro litros produzidos por cada animal. Finalizado o processo, os galões cheios são colocados na picape e o leite é levado até o carreteiro, que aguarda na entrada do sítio. O carreteiro é o responsável por levar o alimento para o resfriamento e, posteriormente, ao Laticínio Irmãos Carlucci, localizado em Álvares Machado, onde o leite é transformado em diversos produtos, como queijos, iogurtes, manteiga e o famoso leite de saquinho.

JÁ OUVIU FALAR SOBRE INTOLERÂNCIA À LACTOSE?

Ouça mais sobre o assunto no podcast:

MÃOS NO LEITE

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