O tempo perguntou pro tempo: quanto tempo 2020 tem?

O tempo perguntou pro tempo: quanto tempo 2020 tem?

O tempo perguntou pro tempo: quanto tempo 2020 tem?

Bianca Alves, Bruna Evelyn, João Lucas Martins, Marco Vinicius Ropelli, Victória Domingos

Não é difícil encontrar pessoas que digam que o tempo está passando rápido demais ou que está muito lento, durante a pandemia; isso pode gerar transtornos psicológicos 

Neste trava-língua comum da cultura popular brasileira, que dá título a essa reportagem, a resposta que o tempo dá ao tempo é: “que o tempo tem tanto tempo quanto tempo o tempo tem”. É confuso, não é? Por isso combina tanto com o ano de 2020.

Já conhecido nas rodas de conversas como “o pior ano das nossas vidas”, devido à pandemia da Covid-19 que impôs um “breque” no mundo inteiro, o vigésimo ano do terceiro milênio fez da percepção de tempo das pessoas uma verdadeira confusão. Alguns exemplos que confirmam isto estão nos esportes: as Olimpíadas de Tóquio 2020, por exemplo, acontecerão entre julho e agosto de 2021, e nem por isso mudaram de nome.

Sobre o Brasil, os amantes de uma bola bem jogada só conhecerão seus campeões nacionais de 2020 no próximo ano, visto que tanto o Campeonato Brasileiro de Futebol, o Brasileirão 2020, quanto a Copa do Brasil 2020, tiveram suas rodadas finais definidas pela CBF (Confederação Brasileira de Futebol) para o mês de fevereiro de 2021. Da mesma forma, as Copas Libertadores da América e a Sul-Americana, organizadas pela Conmebol (Confederação Sul-Americana de Futebol), terão seus campeões de 2020 definidos no primeiro mês do ano que vem. 

Por essas e outras coisas, tem quem se pergunte: “Vamos pular 2020?”, “Este é um ano perdido?”. Também, por conta do novo normal, muitos já questionam: “É impressão minha ou o tempo está voando” ou “Essa pandemia não vai acabar nunca?”. Essas questões podem esconder até mesmo problemas psicológicos relacionados à nova rotina e à percepção do tempo nestes dias atípicos de quarentena e isolamento social. Estes casos, não se podem levar na esportiva.

“Para mim, [o tempo] está passando muito mais rápido, eu não sei o porquê, mas está passando muito mais rápido. Parece que foi ontem que a gente estava em março e que eu voltei para Rancharia (SP), achando que iria passar somente duas semanas”, conta Luiza Gimenez, 20 anos, graduanda em Fisioterapia na FCT/Unesp (Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”) de Presidente Prudente.

Demonstrando o paradoxo que o momento causa, ela completa: “Eu fico muito mais estressada e angustiada, primeiro porque não posso ver ninguém, nem sair para lugar algum, e, principalmente, nos dias que eu começo a pensar que isso não vai passar nunca”.

AMANHã VAI SER OUTRO DIA?

Cientificamente, não é boa ideia colocar dúvida sobre o célebre verso do cantor e compositor brasileiro Chico Buarque de Holanda. Claro que amanhã será outro dia, até porque a terra gira em seu eixo, de modo que a cada 24 horas a luz do sol recaia em um dos lados do planeta, assim nascem os dias.

Sabe-se, porém, que quando Chico escreveu esta letra, em 1978,  ele falava metaforicamente nas esperanças do povo pelo fim da ditadura militar. No caso atual, a percepção de tempo afetada pela pandemia também parte de um princípio metafórico, ou melhor, psicológico, porque o vírus causou muitas mudanças, mas ainda não conseguiu alterar a rotação terrestre

“A sensação de passar de tempo rápido ou devagar, a noção de tempo, tem a ver com ritmo, com frequência. Com as questões da pandemia, o distanciamento social, a quebra da rotina, a quebra das repetições, aparecem uma alteração nessa sensação de tempo. Então algumas pessoas vão sentir que o tempo está passando mais rápido, outras vão sentir que está mais devagar”, explica o psicanalista Guilherme Carvalho, 39 anos.

Guilherme atribui quebra de rotina como principal vilão nas sensações distorcidas de tempo (Foto: João Lucas Martins)

Outro psicólogo, Murilo Oliveira Araújo Costa, 26 anos, complementa a fala de Guilherme e aponta que tais sensações se devem ao fato de as pessoas, em geral, darem atenção exagerada a certos conflitos. Segundo ele, a população, por estar consumindo muita informação a respeito da pandemia, tem atenção voltada a este assunto, de forma que ele permeie todos os aspectos da vida do indivíduo. “Como a pandemia fez com que a rotina fosse ‘pausada’ para muita gente, essa pausa liberou tempo ocioso, ócio que pode vir a ser preenchido com rotinas maçantes ou entediantes”, completa.

Problemas psicológicos ligados à pandemia têm sido comuns no consultório de Murilo (Foto: João Lucas Martins)

SENTIMENTOS SÃO PATOLÓGICOS?

Não é só Luiza que sentiu os impactos da pandemia do novo coronavírus em sua percepção de tempo. A estudante do 3° Ano do Ensino Médio, Fernanda Budiski Bueno, 17 anos, também se demonstra impressionada pelos meses transcorridos desde o início das medidas de isolamento social.

Por outro lado, a professora Bruna Letícia Santos Alves, 27 anos, diz que, neste contexto, conseguiu sentir os dias como eles são. Nem rápidos, nem devagar. “Acredito que nós que fazemos o nosso tempo e com a correria e sobrecarga antes da pandemia, sempre estávamos correndo contra o tempo e nos dava a impressão de que ele era rápido demais. Acredito que agora consigo ‘ver’ esse tempo”, conta.

A experiência positiva de Bruna, não é regra. Murilo afirma que, em seu consultório, registrou aumento de casos de problemas psicológicos relacionados à pandemia. Para ele, o destaque são os ligados às angústias causadas pelo trabalho em casa, o home office, mas queixas em relação ao tempo também aparecem, normalmente relacionadas à procrastinação ou à sensação de que não estão produzindo o suficiente ou o contrário, a sensação de falta de tempo para produzir.

O psicólogo Guilherme vai além. “De um lado essa aceleração do tempo pode gerar ansiedade e, do outro, a desaceleração do tempo pode gerar a desesperança. Quando essas sensações alteram a maneira como a gente vê o mundo, o nosso ritmo diário, desabilitam a gente a fazer alguma tarefa diária, tornam disfuncionais as relações, tornam disfuncional o meu funcionamento no mundo, a gente já pode pensar em procurar uma ajuda psicológica”, enfatiza.

O DESANIVERSÁRIO DE NATHALYE | PODCAST

Por falar em doenças ligadas ao estado emocional, a história de uma debutante prudentina é um bom exemplo de como a ansiedade pode fazer mal. No caso dela, estes sentimentos não estão relacionados estritamente às sensações em relação ao tempo, mas ao fato de ter adiado um dos momentos mais esperados de sua vida. Nathalye Vitória sempre teve um sonho: o de realizar sua festa de 15 anos, com o tema do filme “Alice no País das Maravilhas”, baseado no livro homônimo de Lewis Carroll. Mas, como a vida é um mistério e nunca sabemos, de fato, o que o futuro nos reserva, tudo precisou ser modificado. O novo coronavírus chegou ao Brasil em 2020, fazendo com que Nathalye corresse contra o tempo, adiasse sua festa e transformasse cada detalhe. Essa situação acarretou muita angústia, ansiedade e medo, mas não deixou que a jovem desistisse do seu sonho, afinal, como disse o Chapeleiro Maluco: A única forma de chegar ao impossível, é acreditar que é possível. ” Após uma longa fase de reorganização, a debutante comemorará sua festa em 2021, com 16 anos, porém, com o mesmo encanto, brilho e magia dos desejados 15! 

Ouça a história dela no Podcast: 

2020 FOI TEMPO PERDIDO ?

Para Nathalye Vitória, como ela disse no Podcast, 2020 não foi perdido, “foi bom, até”, garante.   Mas e Bruna, Fernanda e Luiza? Como elas respondem essa questão? 

Eu acho que esse ano foi meio que um ano perdido para mim, porque eu queria fazer muitas coisas e não consegui, é óbvio. Mas, em um contexto geral, eu acredito que não foi um ano perdido, afinal, ele serviu para tentarmos nos reinventar e para acharmos outras formas de fazer as coisas que fazíamos antes
Luiza Gimenez
Não está perdido, pois muitas pessoas puderam desacelerar, sair de suas rotinas corridas, cuidar de si mesmas, também se adaptaram e descobriram novas formas de fazer as coisas. Infelizmente precisou ser de uma forma triste e desagradável
Fernanda Budiski Bueno
O ano não está perdido, na minha concepção. Perdemos algumas oportunidades, com certeza, mas ao mesmo tempo ganhamos muito. Ganhamos tempo de qualidade, mais proximidade da família, autoconhecimento. De certa forma a pandemia foi um convite para que pudéssemos desacelerar e ganhar sentimentos e valores perdidos ou esquecidos
Bruna Letícia Santos Alves

A superação para este momento e a sensação de que o tempo escorre entre os dedos sem que seja possível recuperá-lo, na visão do psicanalista Guilherme é “fazer valer a pena”. E, aparentemente, é isto que Bruna, Fernanda e Luiza estão procurando levar como lema. Estão vendo, como dizem, o copo meio cheio e não meio vazio.

“Existe uma limitação física, nós não podemos estar nos lugares que frequentávamos antes, não podemos estar em grupos fisicamente, mas o ambiente virtual pode contribuir para amenizar essa sensação. Ainda é tempo de cuidar do corpo, ainda é tempo de conversar com as pessoas, ainda é tempo de estudar, ainda é tempo de aprender. Não é tempo de abandonar a faculdade, abandonar a escola, deixar para o ano que vem. O tempo é agora, só que nós precisamos entender que não é possível se fazer da mesma forma que era antes, e essa mudança precisa ser aceita com tranquilidade”, completa Guilherme.

Murilo, por sua vez, recomenda que a melhor forma de lidar com a sensação maçante desse tempo condensado é distrair-se dele. Conforme o psicólogo, até mesmo o fato de ficar ansioso com esse aspecto pode levar à angústia e sensação de lerdeza temporal.

Guilherme deixa dicas a Fernanda, que se queixa de medo e angústia, especialmente, por neste ano, ter perdido a oportunidade de frequentar um cursinho pré-vestibular e pela pressão que a proximidade dos vestibulares tem causado nela, e à Bruna, que também confessou ter vivido momentos de angústia durante a pandemia e tem preocupação sobre os próximos anos em relação ao futuro do país, em aspectos educacionais e de desigualdade, além de ter sido obrigada a adiar a comemoração de 10 anos de seu projeto, o Doutores do Sorriso e a Arte das Palavras, que leva alegrias a pacientes em entidades sociais.

Para quem sente que o tempo está muito acelerado, Guilherme sugere começar a gerar uma rotina, mostrar para o cérebro que existe horário para se fazer as coisas. Tem a hora de acordar, de tomar café, de sentar para trabalhar, almoçar, tomar banho. Começar a gerar uma rotina cotidiana para que essa sensação vá diminuindo e ao mesmo tempo a pessoa perceba que há uma produção diária, que dá conta de um número de tarefas que é suficiente para se sentir produtivo.

Para as pessoas que sentem que o tempo não passa, que os dias estão demorando muito, que essa pandemia não acaba nunca, que nunca vão alcançar seus sonhos, que tiveram que mudar os seus planos para o ano que vem, ele recomenda perceber quais são as possibilidades que existem neste momento, o que tem para se fazer em casa. “Ler aquele livro que já está na estante há muito tempo, fazer aquele curso online sobre aquele assunto que te interessa, assistir aquela série que já faz tempo que você quer terminar e não consegue”, pontua.

“É necessário aproveitar esse tempo de pandemia, esse tempo em que estamos um pouco mais desacelerados, para uma produção interna, para um desenvolvimento interno, intelectual, de um aprendizado relacionado à vida, relacionado aquilo que é do nosso interesse pessoal, para que quando tivermos novamente oportunidade de voltar a trabalhar e nos relacionar normalmente, a gente possa sentir que voltou melhor, mais enriquecido intelectualmente e pessoalmente”, ressalta.

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Deus é brasileiro? Pergunte aos japoneses e aos húngaros… De certo será possível perceber que a fé não tem nacionalidade. É sobre a coragem da fé e a determinação da religiosidade que se ergueram duas colônias na região oeste do Estado de São Paulo: a japonesa de Álvares Machado e a húngara de Presidente Epitácio.

Nessa série de dois vídeos, você conhecerá mais uma das peripécias temporais que 2020 e a pandemia da Covid-19 causaram. Nas duas colônias citadas, uma grande comemoração era esperada em 2020, o centenário da própria colônia, em um dos casos, e de uma tradição, em outro. 

Da mesma forma que Nathalye, a debutante, comemorará os 15 anos aos 16, estas colônias comemorarão os centenários aos 101. “É triste”, alguns descendentes revelam, mas como tudo que é fundado na fé dos povos, perseverantes esperam tempos melhores para prosseguirem com a tradição e legado dos descendentes que atravessaram mares para construírem nova vida no novo continente.

 

LINHA DO TEMPO

Quanto tempo 2020 tem? Está na cara! Tempo suficiente para aprender e tirar reflexões importantes de um momento tão sombrio, porque tempos ruins criam pessoas fortes e isto é prenúncio de um 2021 muito melhor.

FICHA TÉCNICA:

Produção e Reportagens: Bianca Alves, Bruna Evelyn, João Lucas Martins, Marco Vinicius Ropelli e Victória Domingos

Artes e Infográfico: Victória Domingos

Edição de imagens: João Lucas Martins

Edição de texto, vídeos, áudio e diagramação: Marco Vinicius Ropelli

Orientação e Supervisão: Profa. Dra. Fabiana Aline Alves 

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