Das paredes para as telas: a pintura como terapia

A vida de Celi Fabris, que usa a arte como tratamento para a depressão, doença crônica que sofre há 21 anos

Por: Amanda Antunes, Giovana Farias, Karen Dantas, Nadia Ribeiro e Thauana Pulido

O barro maleável que um pai romeiro levava para casa era a matéria prima de uma filha criativa que o moldava como xícaras, panelinhas e bolinhos. Esta filha cresceu envolvida com a arte e supera a depressão dia após dia aos 78 anos de idade com a ajuda de um remédio um tanto peculiar: a pintura.

A primeira vez que Celi Fabris teve contato com arte visual foi através da irmã mais velha que desenhava e pintava. Ainda muito nova para ir ao colégio, ela pegava emprestado os lápis de cores e se inspirava no que a irmã aprendia, mas sempre acrescentando os seus próprios detalhes, como as roupas, o rosto e os sapatos dos bonecos que antes eram apenas palitinhos.

Mesmo começando a trabalhar muito nova como professora dos vizinhos com ascendência japonesa e que precisavam de ajuda com o português, Celi nunca chegou a abandonar a pintura. Quando se formou professora, anos mais tarde, levou a arte que admirava para dentro da sala de aula, onde “as cortinas eram todas pintadas, era muito florida e na lousa, colava desenhos”. 

Esta proximidade com a arte a fez recorrer à pintura quando precisou de tratamento psicológico em 1996. “A senhora está com depressão”, foi o diagnóstico do geriatra. Foi a primeira vez que Celi ouviu o termo e tomou conhecimento da existência da doença do tipo crônica e de sua gravidade. A professora, hoje aposentada, havia perdido a mãe no ano anterior, episódio que desencadeou várias crises. Ela descreve a doença como a sensação de em um momento estar viva e no outro, morta.

“O primeiro sintoma foi que passei a ficar muito quieta, não queria sair, não atendia ao telefone, ficava só no quarto deitada e pensando que eu precisava fazer alguma coisa por mim, mas eu não tinha vontade”, Celi também não queria tomar banho e não sentia fome. Com esta perda de apetite, chegou a emagrecer 18 quilos. Foi então que sua filha a convenceu ir ao médico.

Inicialmente o geriatra que a diagnosticou indicou um psicólogo que não tinha vaga para atendimento até o próximo quarto mês, no entanto, a secretária deste profissional lhe apresentou um recém-formado ansioso para trabalhar. “Me lembro que ele disse ‘no ponto em que a senhora estava, poderia vir a morrer’”, mas ela garante que nunca tentou isto. “Teve uma vez que eu estava na janela, olhei para baixo do prédio e pensei ‘eu não vou morrer’”. Para Celi, a relação entre médico e paciente é fundamental, “ele não pode nos perder de vista e nós também não podemos quebrar este vínculo”.

No entanto, Celi não se adaptou bem às consultas e passou a buscar por atividades extras que corroborassem como tratamento. Ciente de que o envolvimento artístico tem o potencial que buscava e com experiência em pintura, a professora transformou a sala de casa em seu próprio ateliê. Foi assim até que uma das paredes sofresse com os borrões de tinta e, então, Celi encontrou no Centro Cultural Matarazzo um espaço onde poderia pintar à vontade.

Celi é uma dentre as várias pacientes com algum tipo de diagnóstico psicológico que buscam na arte uma forma de melhorar a qualidade de vida, como conta a professora de pintura da oficina do Matarazzo, Maria Sueli Silva. Ela explica que a arte, independente da forma de expressão, estimula o cérebro e por isso é prazerosa e também melhora o humor. Portanto, a arte faz com que aquele que a pratica se desligue dos problemas cotidianos.

Embora Celi não tenha mencionado a doença quando iniciou as aulas, Maria Sueli afirma que não é possível esconder sentimentos quando se produz este tipo de expressão artística. “Se você estiver triste, a pintura vai sair num tom, se você estiver alegre, ela vai sair com outro tom. Isso não dá para disfarçar”, garante. “Se você estiver bem emotivamente, você vai tentar deixar muito melhor aquilo que você está fazendo. Agora, se você não estiver bem, vai virar um borrão”.

Maria Sueli também notou que a forma com que Celi se relaciona com as colegas mudou ao longo dos anos. “Antes quando ela respondia, respondia mal ou então tudo era ‘não’, ‘não gosto’, ‘não quero’”. Porém, hoje Celi é considerada uma das mais animadas e dinâmicas da turma, sempre querendo fazer festas e amizades.

Vinte e um anos após o início do tratamento, as consultas com o psicólogo se tornaram esporádicas, embora a medicação ainda se faça necessária. Isso mostra o quanto Celi evoluiu. Porém, não só no tratamento. Suas habilidades artísticas também se desenvolveram ao longo dos anos, fato que ela relata com orgulho. “No tecido já pintei muita coisa e eu domino bem, este ano eu usei a técnica do espatulado e eu pintei as telas todas com espátulas”. Mas ela não quer parar por aí, ainda deseja aprender a fazer Aquarela, uma técnica chinesa onde os pigmentos são dissolvidos em água. “Já que estou neste mundo, vou aprender de tudo que tem nele”.

Mãe de dois filhos, sendo um homem e uma mulher, e avó de uma neta, de quem se orgulha e afirma que “Deus caprichou”, Celi garante que aproveitou a vida e realizou o sonho de ir para o exterior. No caso, a Europa. “Minha filha morou 17 anos em Portugal, dali eu viajei para todo canto”. Porém, hoje ela já não faz planos para o futuro. “Quero viver o agora”.

Apesar da idade avançada, Celi não se tortura com a ideia da finitude da vida. “Não fico pensando que daqui a dois anos estarei com 80, não fico na contagem regressiva. Quero viver quantos anos Deus me der”. Todavia, quando questionada sobre o que espera para o futuro, Celi revela que deseja viver muito, desde que se mantenha “falando bem, escrevendo e vivendo o dia a dia gostoso e simples”.

Mesmo não planejando mais este futuro, não se impede de projetar em sua mente tudo que poderia fazer se quisesse. “Stand up”, é a resposta repetida diversas vezes. A professora garante que sabe contar piada e que o talento é genético. “Veio por parte da família Fabris, que é a do meu pai”. Apesar do bom humor com que fala sobre a sua condição depressiva, tal como as causas, consequências e tratamentos, Celi leva a sério cada passo que dá em relação a sua saúde psíquica e física. “Você acha que uma pessoa assim como eu deve parar de tomar remédio? De jeito nenhum! E nem de fazer pintura”, conclui.

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