Foto: Jennifer Figueiredo

Ele veio para ficar

“Pedir comida, agendar reunião, compromissos, pedir transporte, fazer pagamentos, receber, ver as redes sociais. Basicamente, 90% da sua vida já está no celular”, conta Paulo Carneiro, 39, designer gráfico. Muitos compartilham deste pensamento, mas, afinal, o celular faz parte da sua vida ou se tornou a própria razão da sua existência?  

Por Jeferson Silva, Jennifer Figueiredo e Jéssica Silva

Foto: Jennifer Figueiredo

De uns anos para cá, a compra e venda de novos aparelhos celulares têm aumentado exponencialmente. No Brasil, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), foi superada a marca de um aparelho por habitante, totalizando cerca de 230 milhões de celulares inteligente ativos no território nacional para 210 milhões de habitantes. 

Só no ano de 2018, foram vendidos 44,4 milhões de aparelhos, segundo a IDC e APP Annie. Mas, afinal, existe uma a razão para isso? A cada lançamento, há uma novidade, um recurso, uma ferramenta que em poucos dias conquista os usuários e fomenta a compra daquele novo produto.

Jorge Rafael se entretém ao utilizar seu smartphone durante os intervalos do trabalho (Foto: Jennifer Figueiredo)

O smartphone é conhecido por carregar diversas funções em um único aparelho que facilita o dia a dia do usuário, considerado quase que indispensável na realização de tarefas cotidianas.”Na comunicação com o dispositivo você consegue fazer chamadas por vídeo, então isso acaba ajudando as pessoas que moram longe da família, por ser uma coisa prática. Não precisamos do computador ou ir outro lugar para fazer isso”, explica Jorge Rafael, 27, formado em sistemas para internet.

O celular pode ser visto por todos os lados, nas mãos de cada pessoa ao seu redor, que passam despercebidas ou pior, distraídas de todo o resto. “As pessoas estão mais individualistas, há alguns anos. Se tornaram mais secas e sem diálogo. Até quando estão um de frente para o outro, usam o celular, sem nenhuma conversa produtiva”, conta o psicólogo Guilherme Pinheiro.

Já o designer gráfico Paulo Carneiro costuma andar sem carteira, cadastrou seus principais cartões no celular e o usa para pagar as contas. Até o dia em que seu aparelho o deixou em uma situação desconfortável. “Estava comendo no shopping e ia pagar com o celular, por aproximação. Mas, quando fui fazer o pagamento, vi que tinha acabado a bateria do aparelho. Como você explica isso ao garçom? Você acaba se apoiando muito na tecnologia e na comodidade, mas na hora que mais precisa.”

Foto: Jennifer Figueiredo

A estudante de pedagogia, Lidiane Souza, conta que hoje não sai mais de casa para resolver coisas do cotidiano sem o acessório que facilitou muito sua vida. “Hoje o que eu costumava carregar deixo tudo em casa, compro passagens de forma rápida e prática, faço pagamentos onde estiver. Ir para bancos hoje é muito raro, até comida! Controlo tudo na palma da mão”.

Mas será que esse uso tão exagerado e excessivo do aparelho traz algum problema à saúde? De acordo com o neurologista Fernando Albuquerque, o uso inadequado dos eletrônicos pode causar alguns danos físicos à saúde. “Dores de cabeça, enxaqueca, cansaço, sudorese, palpitação, dores musculares, insônia, são manifestações físicas que estão associadas ao uso excessivo do smartphone”.

Pesquisadores da Universidade Privada em Seul, na Coreia do Sul, realizaram um estudo a fim de investigar como essa dependência altera a química cerebral. Para isso, o neurorradiologista Hyung Suk Seo decidiu observar um grupo de dezenove adolescente na faixa dos 15 a 17 anos com diagnóstico de dependência em tecnologia.

Os resultados dos testes realizados revelaram que esses jovens tiveram níveis bem consideráveis de depressão, impulsos e insônia. Além disso, foram testados os níveis do neurotransmissor, denominado GABA, que inibe ou retarda sinais vitais no cérebro. Ele ainda torna os neurônios dependentes que acabam entrando em um processo de encolhimento e cada vez mais propensos ao uso dos eletrônicos.

Paulo Carneiro
Paulo está sempre por dentro das novidades na sua área (Foto: Jennifer Figueiredo)

Para a psicóloga Lidiane Gusmão, o uso abusivo das tecnologias, junto com a expansão das redes sociais contribuem para o isolamento do indivíduo que se sente acolhido no ambiente virtual. “A complicação neste aspecto é o like, o coraçãozinho, o ‘haha’, isso é um estímulo para muitas pessoas que preferem interagir mais com o universo virtual do que com o real”.

O designer gráfico, Paulo, acredita que a função nativa de ligação por celular está um pouco ultrapassada devido à facilidade oferecida pelos dispositivos móveis e por aplicativos de mensagens. “Outro dia recebi várias ligações da minha irmã, mas não atendi. Mandei mensagem no WhatsApp dela para perguntar o porquê de ela estar me ligando. Para mim, quando uma pessoa liga, eu já penso que aconteceu alguma coisa, eu assusto”.

Dados dos relatórios feitos em 2018, pela Global Digital, da We Are Social e Global Mobile Consumer Survey,

administrado pela consultoria Deloitte, apontam que os brasileiros passam cerca de 8h por dia navegando na internet. E dessas mais de 4h são de acessos realizados por meio de conexões móveis, dos próprios celulares. Além disso, a pesquisa ainda demonstrou que os usuários dos dispositivos de telefonia móvel no país desbloqueiam seus smartphones, em média, 60 vezes ao dia. O número cresce ainda mais entre os jovens, que checam seus celulares mais de cem vezes ao dia.

O psicólogo Guilherme Pinheiro explica que há uma quantidade de tempo indicada para utilizar o telefone móvel de forma saudável, limitando os prejuízos que o aparelho pode causar. “O tempo ideal diário seria três horas e meia. Dependendo do motivo que usa, do aplicativo que usa. Há uma grande necessidade das pessoas de se sentirem conectadas, mas se não houver um tempo estipulado, elas tendem a desenvolver certos problemas”.

Foto: Jennifer Figueiredo

Use com moderação

Nem tudo é coisa ruim, afinal, quando o dispositivo é utilizado com disciplina e cautela, ele se torna um forte aliado às tarefas cotidianas. Já que ele otimiza o tempo de muitas pessoas, de forma prática e eficiente, como aponta a estudante de pedagogia Lidiane: “No meu caso, eu uso para ler notícias, resolver rapidamente coisas do trabalho e da faculdade.”

A publicitária Karine Neves, 27, utiliza o celular apenas quando precisa. “Eu não acho que eu dependo muito dele. Apenas quando estou sem meu computador, uso mais o celular. Mas, para mim, é um incômodo a tela menor para pesquisas, prefiro o computador.”

Paulo concorda com a ideia de que o aparelho traz diversos benefícios e que inclusive pode ajudar na hora do aperto. Ele conta que ficou preso na estrada devido à uma fiscalização no transporte e não iria chegar a tempo de apresentar um trabalho de faculdade. Decidiu ligar para os outros ônibus e pediu que todos ficassem na pista. “Nós colocamos 300 alunos na rodovia. Depois, o PM ligou para o comandante e mandaram todos os alunos entrarem nos ônibus e liberaram para ir embora”. Ele não chegou a tempo, mas conta que pôde orientar seu grupo e a apresentação do trabalho por meio do celular.

O universo corporativo também está cada vez mais adepto à tecnologia móvel, já que o principal objetivo é proporcionar mais produtividade, eficiência e economia nos processos internos e externos da empresa.

Além de ser um dos dispositivos mais usados pelos usuários para obter informações sobre produtos e serviços daquela marca.

Karine Neves aproveita o horário de descanso para fazer ligações para sua família. Foto: Jennifer Figueiredo

A secretária Kátia Pereira explica que uma das vantagens do aparelho é que, além de estabelecer o contato entre as pessoas, ele também pode se tornar uma ferramenta corporativa, isso porque o telefone móvel oferece diversos recursos que conseguem gerir, potencializar resultados e facilitar as rotinas administrativas dentro de uma empresa. “Após a implementação da telefonia móvel aqui dentro, nós conseguimos atingir, levar conhecimento e aguçar o desejo de compra sobre nossos produtos muito mais rápido aos clientes lá fora”.

Graças à tecnologia presente no celular, ele se tornou uma das principais fontes de conexão. Devido ao sucesso do dispositivo e o crescimento de aplicativos e funções é de se esperar que o número de usuários ativos na web também cresça.

Conforme pesquisa realizada, em 2018, pela TIC Domicilios /CETIC, revela que o uso da internet por meio do celular aumentou de 76% para 97%, ou seja, basta ligar a internet para se conectar em qualquer canto do mundo e obter tudo o que precisa direto na tela do celular. A partir daí, o aparelho rompe os limites da distância e cumpre o papel fundamental de aproximação com o público, o que permite estabelecer a comunicação em um nível cada vez mais surpreendente, prezando pela responsabilidade em seu manuseio.

Evolução dos smartphones

PRIVACIDADE NO USO DOS SMARTPHONES

Vazamentos de dados, golpes bancários no Whatsapp e em outros aplicativos. Quem usa o celular para resolver boa parte do cotidiano, tem motivos para se preocupar com a segurança e a privacidade. Atualmente, no Brasil, de acordo com uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas, realizada em 2017, há uma estimativa de 220 milhões de celulares em funcionamento no país, para 207,6 milhões de habitantes.
Esses dispositivos são usados, inclusive, para serviços que exigem senhas e dados pessoais, conforme um levantamento realizado pela Kantar, 64% dos jovens realizam frequentemente ou ocasionalmente, pagamentos por meio de aplicativos e 57% fazem essas operações em navegadores móveis. Uma grande quantidade de informações pessoais são armazenadas nesses aparelhos que, em caso de roubo ou invasão, as chances desses dados serem vazados e expostos na web são grandes e podem causar muitos prejuízos.

Tecnologias na terceira idade

Nanci Vedove, nasceu em 19 de dezembro de 1944. Mas, se engana quem pensa que ela gosta de tricô ou descanso. Nanci é bastante ativa e trabalha vendendo produtos de beleza. Ela conta como começou sua história com as tecnologias e de que forma utiliza esses recursos para ajudá-la nas tarefas do dia a dia.

FICHA TÉCNICA

REPÓRTERES: Jeferson Silva e Jennifer Figueiredo | FOTOGRAFIAS: Jeferson Silva, Jennifer Figueiredo e Jéssica Silva | INFOGRÁFICO: Jeferson Silva  | PODCAST: Jeferson Silva, Jennifer Figueiredo e Jéssica Silva | EDIÇÃO DE TEXTOS: Jeferson Silva, Jennifer Figueiredo e Jéssica Silva | PRODUÇÃO DE VÍDEO: Jennifer Figueiredo | EDIÇÃO DE VÍDEO: Jeferson Silva, Jennifer Figueiredo | EDIÇÃO DE IMAGENS: Jennifer Figueiredo | LAYOUT DA REPORTAGEM: Jeferson Silva, Jennifer Figueiredo | EDIÇÃO FINAL E SUPERVISÃO: Fabiana Aline Alves.

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