AUTORAL: A BUSCA PELA ARTE

Cena musical undergroud de Presidente Prudente começa a ganhar espaço no Oeste Paulista, em meio a lutas, dificuldades e a perseverança em busca da realização artística

Por: Camila Araujo, Gabriel Takada e Pedro Silva

- Se você não está tentando ser real, você não precisa fazer isso direito. Isso é arte. (Andy Warhol)

Underground é uma palavra da língua inglesa que, traduzindo ao pé da letra, significa debaixo do chão. O termo é usado para nomear o movimento iniciado na década de 1970, com o punk rock. Caracterizado pela contracultura e por ser uma expressão autoral sem produção da indústria, o movimento underground é considerado uma resposta para as músicas da época, que eram definidas por arranjos e melodias complexas, equipamentos caros e músicos formados.

Ao contrário do que parece, a cultura underground abraça diversos estilos musicais, como regional, rock, metal, eletrônica, sertaneja, caipira, folk, instrumental, rap, funk e todos os outros desejados pelos artistas. Por se caracterizar em todas as manifestações autorais, os teatros de rua, grafites, poesias e outros movimentos artísticos fora do mainstream, também fazem parte dessa cultura.

"O que é underground para mim não é para você”, explica Kelly

Kelly Nogueira Marques é formada em Produção Fonográfica, Mestre em Artes Musicais e Doutora em Ciências Musicais. Ela é especializada nas músicas e movimentos do século 20. Para ela, 300 anos de música clássica utilizando técnicas eruditas e complexas elitizou a música, trazendo ares excludentes. Segundo Kelly, quem tinha dinheiro poderia querer ser músico, quem era pobre somente ouvinte.

“O underground é bem subjetivo, ele não é um padrão estabelecido. Nós temos vários gêneros e estilos que compõem, mas o que define é o fator cultural, talvez seja a questão de que o que é underground para mim não é para você”, explica Kelly.

MAS ISSO É UNDERGROUD?

Para ele, o underground é a arte sem amarras, utilizada para expressar as ideias e vontades dos artistas

“O cenário é muito grande, vai desde o cara que faz um muralismo, até as bandas que tocam na região, mas também são os caras do sertanejo que tocam as músicas deles nos barzinhos, isso tudo é underground“, comenta Rafael Batalini Costa.

Rafael é artista, multi-instrumentista, ator, educador musical e ativo do movimento da região. “Você teve dinheiro e aprendeu a tocar assim, mas eu não sei tocar assim, eu vou tocar assim grosso, bruto, e f***-se”, encena. Para ele, o underground é a personificação do Do It Yourself (faça você mesmo), da arte sem amarras, utilizada para expressar as ideias e vontades dos artistas, suas lutas, e principalmente fazer arte.

SOLTA O BEAT | PODCAST

O undergroud permite que os músicos sejam eles mesmo e busquem sua própria sonoridade e estilo.  Optar por seguir as próprias escolhas traz desafios diários para chegar aos objetivos desejados.

Bruno Gondzalo e Gil Barreto são cantores de Presidente Prudente e juntos têm trabalhos autorais voltados para bares da região. Na carreira, os amigos se uniram, Gil como vocalista e Bruno como guitarrista e violonista.

PODCAST – SOLTA O BEAT | A BUSCA PELO RECONHECIMENTO ARTÍSTICO

SOM NA LINHA

Rafael está no movimento desde sua época de universitário, quando estudava química na FTC/Unesp (Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Estadual Paulista) em Presidente Prudente. Junto a alguns amigos, formou um grupo artístico juntando vários alunos da faculdade.

O primeiro nome do projeto era Confraria do Ativismo, nome que depois foi substituído por Mocambo Groove. Mocambo se refere aos esconderijos utilizados por escravos que fugiam das senzalas antes de chegarem nos quilombos. Já Groove trata do estilo pessoal de cada músico tocar, é o jeito de interpretar e deixar a música única. Mocambo Groove, explica Rafael, seria o esconderijo do estilo, juntando todas as referências do grupo.

“Nós nunca nos prendemos a uma única cultura musical, a uma única estética. Então nós não éramos uma banda de rock, nós não éramos um grupo de samba, nós não éramos um bloco de maracatu, não éramos uma sambada de coco, não éramos uma roda de ciranda, ou um grupo de rap, ou uma orquestra de frevo. Nós éramos um pouco de todas essas coisas juntas, então o nome vem dessa ideia, de sermos a casa de sons, o esconderijo de sons”, explica.

O coletivo Som Na Linha nasce das referências e desejos de Rafael e seu grupo. A iniciativa busca ocupar espaços públicos e permitir que os artistas mostrem seus trabalhos. “Fazemos uma militância através da música autoral, então ocupamos espaços públicos da cidade e o ressignificamos em outro sentido, outra forma de lazer, outra forma de estar nesse espaço, e o devolvemos para a população”.

O projeto atende várias áreas da produção artística, desde oficinas culturais, a shows de música autoral, apoio a ações de terceiros e feiras de economia solidária. “As edições do Som na Linha busca descobrir e mapear esses compositores autorais, esse grupos que estão produzindo essas músicas e fazer um trabalho de voltar a atenção para esses grupos”, descreve Rafael. “Eu particularmente curto muito procurar essas pessoas. Eu sou compositor, então através dessas pessoas eu estudo outros grupos”.

Através do olhar do coletivo, os participantes buscam potencializar a arte dos escolhidos. O projeto disponibiliza a estrutura para os artistas e, muitas vezes, também aos fotógrafos. Possibilitam também gravações na mesa de som, possibilitando a divulgação do material de forma mais acessível.

Das 15 edições, muitas contaram com oficinas de instrumentos e projetos de skate. Rafael também constrói instrumentos com materiais alternativos, como canos de PVC. “Eu busco trazer acessibilidade aos instrumentos e ao fazer musical, porque às vezes um instrumento é muito caro, como uma flauta que pode custar 800 reais e eu posso fazer um pífano por uns três reais”.

“Eu busco democratizar o fazer artístico. É a parada de dar ferramentas para as pessoas fazerem isso. Eu faço isso porque eu acredito na transformação da arte”, pontua Rafael.

Rafael acredita que é necessário que os músicos entendam o projeto e o aceitem. “Às vezes os caras falam: ‘Ah, eu vou tocar na rua? Vou tocar de graça?’ Nós tentamos explicar isso, é preciso que os artistas entendam essas condições e as aceitem”.

A partir das edições do coletivo, um festival específico para músicos nasceu: O Diversonoridade.

DIVERSONORIDADE

Durante a apresentação da banda Catiça, na segunda edição do festival Diversonoridade, crianças, jovens e adultos se reuniram para dançar ao som do grupo (Foto: Pedro Silva)

O festival nasce com bandas que já participaram dos eventos do coletivo Som na Linha. Os shows apresentados são inteiramente de música autoral, em espaços públicos, de forma gratuita. A primeira edição do festival foi executada na Praça do Centenário em Presidente Prudente.

O local, escolhido não ao acaso, é palco de grande polêmica, por homenagear os coronéis Manoel Goulart e José Soares Marcondes. Rafael expressou em um manifesto na abertura dos shows a indignação que sentia a ter uma praça, que, segundo ele, é homenagem a assassinos de índios e representatividade da formação sangrenta do Pontal do Paranapanema.

No YouTube, uma compilação com algumas músicas da edição está disponível, com trabalho de nove bandas e  inserções de mensagens durante o festival. Entre os fãs e inseridos dentro do movimento, a abertura do show da banda de metal Kinoglass, quando o guitarrista Fernando Volpin, ri e satiriza o prefeito de Presidente Prudente Nelson Bugalho, é comentada e referenciada, mostrando a liberdade e ativismo político característico do movimento undergroud.

Como forma de expressão artística e política, a segunda edição do festival se encheu de críticas ao governo do presidente Jair Bolsonaro, ao abuso de autoridade policial, e repressão religiosa.

Durante dos dois dias da segunda edição do festival, bandas de rock, jazz brasileiro, um DJ, uma roda de samba e batalhas de rap, ocuparam a praça para que os participantes homenageassem figuras controversas da história da cidade.

APUD: Referências e influências | vídeo

Quais são suas influências? O que te inspira? O que faz você ser você? Essas e outras perguntas foram respondidas pelo rapper Negreen e a banda Filhos da Ciça.

O rapper, que passeia do freestyle ao vaporwave, tira suas inspirações de Frédéric Chopin até animes.

Sem estilo definido, a Filhos da Ciça traz o nordeste brasileiro junto com os bares de Liverpool (Inglaterra) para suas canções. 

BACKSTAGE: APUD | vídeo

FICHA TÉCNICA

Repórteres: Camila Araujo e Pedro Silva – Infográfico: Camila Araujo – Fotografias: Pedro Silva – Áudio: Camila Araujo e Gabriel Takada – Cinegrafia: Camila Araujo e Pedro Silva – Edição de textos: Camila Araujo, Pedro Silva e Gabriel Takada – Edição de vídeo: Gabriel Takada e Pedro Silva – Edição de imagens: Camila Araujo e Pedro Silva – Layout da reportagem: Camila Araujo e Pedro Silva – Edição final e supervisão: Fabiana Aline Alves

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